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Sem medo de exageros

9 de setembro de 2008 - 14:11

 

 
O elevado número de jovens que sofrem acidentes e morrem nas vias públicas por falta do uso de capacete é alarmante. Faltou educação, prevenção, promoção da vida

Entre o sucesso e o fracasso do Sistema Único de Saúde estamos muito mais perto do sucesso. Dificuldades existem, ajustes são necessários. Mas exalto o SUS, sem medo de exageros. Simples. Temos a prova dos indicadores em saúde. Quem não lembra da alta taxa de mortalidade infantil registrada no Ceará? Há 15 anos, antes do Programa Saúde da Família, era de 80 para mil nascidos vivos. Agora, em 2008, está em 18 para mil nascidos vivos. Antes do SUS, 20 anos atrás, antes do PSF, médico nas pequenas cidades do interior era só em dia de sábado e exclusivamente um para atender toda a comunidade. Hoje 64% do nosso Estado têm a cobertura do PSF. Há mais de 1.600 equipes cuidando da saúde das famílias. Se médico era difícil, dentista nem se fala.

Mas ser um defensor obstinado da saúde pública, do SUS, é também reconhecer as dificuldades e lutar para que sejam vencidas. O sub-financiamento é um problema. O sucesso do SUS depende principalmente do fim do sub-financiamento à atenção básica. Estamos lutando, através do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), para que 20% até 2011 do orçamento do Ministério da Saúde sejam garantidos para a atenção básica. Do contrário, o calvário continua, com os municípios, o ente mais pobre da relação tripartite (União, estados e municípios), ainda com equipes do Programa Saúde da Família sem dentistas e unidades básicas de saúde funcionando, em alguns casos, em postos de gasolina. Enquanto a atenção básica implora por mais investimentos, os gastos com medicamentos representam hoje 25% do orçamento do Ministério da Saúde. Só no Ceará, os gastos com medicamentos de alto custo em 2007 chegaram a 109 milhões e 451 mil Reais.

Não podemos esquecer de que o SUS abrange a todos. Desde as ações de vigilância sanitária, como o controle da água consumida todos os dias, até o atendimento aos casos graves da epidemia da violência e procedimentos de alta complexidade, como transplantes hepáticos. Muitos só enxergam da saúde pública a espera por um leito de UTI. A verdade é que muitos exames, complexos e caros, assim como determinadas cirurgias, somente o SUS banca. Isso é resultado prático da universalidade e integralidade, princípios básicos do sistema de saúde pública do Brasil.

Agora, nos 20 anos, o SUS deve ter maturidade para avançar na intersetorialidade. O tema do IV Encontro Nacional do Ministério Público – “Políticas públicas intersetoriais e o SUS” – é bastante oportuno. Ainda é um grande desafio, por exemplo, ter educação, saúde e transportes trabalhando, de forma integrada. Racionaliza custos e otimiza resultados. O elevado número de jovens que sofrem acidentes e morrem nas vias públicas por falta do uso de capacete é alarmante. Faltou educação, prevenção, promoção da vida. Tudo poderia ter sido evitado, com as ações intersetoriais funcionando pra valer.

 
Seria menos violência, mais saúde.
 
JOÃO ANANIAS VASCONCELOS NETO – Secretário da Saúde do Estado do Ceará
 

Fonte: Jornal O Povo / Opinião / Artigo